genderfuck

Olhando pra trás e vendo as fotos que tenho escolhido tratar, tenho reparado num interesse pela confusão entre os gêneros. O post sobre o Isaiah, o comentário citando o Asher. No flickr uma das imagens gerou justamente essa confusão. E eu gostei disso.

Nessa segunda viagem eu estava menos assutado e mais aberto pra poder ouvir as histórias das pessoas, que levantavam questões que me perturbavam e me esclareciam. ou me iluminavam justamente pela distúrbio que causavam no meu raciocínio binário.

Entre os aspectos do pertencimento e do acolhimento que eu queria ver no ensaio, um deles é com certeza esse espaço para a experimentação, algo além do pensamento que relaciona gênero com genitália e expressão com identidade.

genderfuck, no wikipedia.

na cabeça

Tenho trabalhado muito na edição das imagens, e no meio de tantas novas tratadas tem uma que não sai da minha cabeça.

Mas ainda não sei por quê.

outro tom


arditti

nova edição

Acabo de subir uma nova edição do trabalho “Na Borda do Campo, no limite da cidade” aqui na galeria do Incubadora. Essa edição é o resultado de muito trabalho, novas imagens e imagens há muito guardadas. Algumas delas foram retiradas também.

Aproveito para publicar um texto sobre o projeto. O texto é, na verdade, mais antigo que essa edição. Passamos algum tempo tentando reescreve-lo sem sucesso, acho que ele representa bem o trabalho e na verdade, gosto bastante da sua objetividade e linguagem. O texto me lembra um “Abstract” de teses em ciências naturais, apresentadas na Academia ou a introdução de um Relatório de Impactos Ambientais, normalmente obrigatórios, para a liberação de obras como a do Rodo Anel de São Paulo.

“O bairro Recreio da Borda do Campo, periferia de Santo André, está situado em área de manancial às margens da Represa Billings, uma das principais fontes de abastecimento de água para Região Metropolitana de São Paulo, Brasil. Sua localização geográfica, isolamento e a normatização ambiental que regulamenta o uso e ocupação do solo, colaboraram para a formação de um bairro com características peculiares.
O nome do bairro remete as origens do município de Santo André, antiga Vila de Santo André da Borda do Campo, sugere o destino vislumbrado por seus fundadores e reforça sua posição em relação a cidade. A região, inicialmente planejada para ser um Clube de Campo, área de recreação, teve sua ocupação completamente alterada. Em meio a vegetação, sítios e casas de final de semana misturam-se a barracos e construções típicas da periferia de São Paulo, evidenciando todos os ciclos de ocupação da região.
Atualmente a construção do trecho sul do Rodo Anel de São Paulo (obra de construção de um anel viário que irá circundar a cidade, com objetivo de desviar o tráfego de cargas da capital) tem alterado de forma profunda a paisagem, o ritmo de vida e o desenvolvimento do bairro. A obra fortalece o isolamento da região, atuando como marco de separação, o Recreio da Borda do Campo ficará para fora dos limites do Anel Viário. Intenciono neste projeto realizar uma leitura desse isolamento, de sua complexidade estrutural e da vida na fronteira entre a cidade e o campo, fronteira essa em eterno deslocamento.”

Mateus, Fernando, Samuel e Danilo.

Essa com certeza não é uma edição definitiva, o trabalho ainda tem um longo percurso. Gostaria muito de receber opiniões sobre as imagens, sua pertinência e a construção narrativa do conjunto. Opiniões sobre o texto e sua relação com o trabalho também são fundamentais. O que acham?

No lugar chamado Borda, vejo uma ilha

Dias intensos de trabalho nos projetos. Muitas ações foram se acumulando, por isso resolvemos sair de São Paulo e trabalhar afastados do movimento. As tarefas que envolvem adequação de edições me lembraram muito a redação técnica para fins diversos. Cada imagem da Borda tem um peso e comunica determinada coisa. Em um grupo certas imagens, que isoladamente talvez não tivessem tanta força, assumem importância monumental (ao meu ver).

Nesse desafio de pensar cada imagem como informação isolada ou agrupada, sigo construindo minha própria narrativa do projeto.

Assim, uma imagem que sempre me chamou muita atenção foi a da canaleta de água, que desde o dia em que foi feita, tornou-se um “ícone” do projeto e eu não conseguia integrá-la na minha edição pessoal. Pensando-a isoladamente, depois de tanto tempo, percebi algumas significações bobas, outras bem mais interessantes. Como um ápice da representação da paisagem alterada pelo homem alguns vêem um caminho, outros vêem um rasgo, hoje eu vejo um mapa, uma ilha, como uma miniatura da Borda, que me faz compreender o por quê dela simbolizar o projeto como um todo, por tanto tempo.

Em algumas edições recentes o que me surpreendeu foi o fato dessa imagem não ter sido eleita. Nessa supressão, comecei a pensar nas imagens que estão cumprindo o seu papel. Acho que suas possíveis substitutas têm sido a represa na neblina e o quadro.

Aqui pergunto-me: Será que essa imagem/paisagem poderia ser substituída por um retrato que represente o projeto?

em um bloquinho de 2003

‎”Na comparação da pintura com o cinema ou a fotografia me parece sempre que a reflexão pára o século 19. Se aquilo que está na foto ‘aconteceu’ realmente, como que na pintura isso não é uma premissa basica tambem. Mesmo quando a gente vê um Kandinsky abstrato ou um esboço (rasura em vermelho) isso aconteceu no mesmo nível de subjetividade da fotografia, só que com mais liberdade. às vezes, acho que não estamos preparados para a liberdade, não sabemos ainda lidar com ela.”

Campo & Ciudad – Borda na Guatemala

No dia 16 de julho abre no Centro Cultural da Espanha na Guatemala a exposição Campo&Ciudad com curadoria de Emiliano Valdés.  Parte do trabalho “Na Borda do Campo, no limite da cidade” integra a mostra.
Participam também: An Atlas for Radical Cartography, Wilbert Carmona, José Manuel Castrellón, Yasmin Hague, Alejandro MarréArmando Miguélez, Observatorio Metropolitano de Managua, Diana Vega & Simón Vega.

Segue o texto do curador Emiliano Valdés sobre a exposição:
“Campo & ciudad es una exposición de obras y proyectos que explora la relación, a menudo desigual y conflictiva, entre los ámbitos urbano y rural a través de sus relaciones geográfica, política, económica y cultural. Partiendo de la visión romántica de la vida en ambos contextos, particularmente manifiesta en ámbitos anglosajones afluentes, los trabajos que conforman este collage son tan variados como la red de relaciones que interesan a esta muestra y exploran las distintas formas de relación, particularmente complejas, en una región en la que el poder, los intereses y la dependencia moldean su dinámica relacional. El acercamiento a este binomio, necesario y, a la vez, confuso, propone reflexiones sobre la manera en la que los conceptos se relacionan: las zonas urbanas y rurales, las delimitaciones, las diferencias, las transformaciones, los estatutos geo-políticos, los procesos de urbanización, los suburbios, el estilo de vida y el poder. También plantea temas estrictamente relacionados con el urbanismo y con la idea de ciudad que prevalece a la planificación urbanística en nuestro contexto.
En un país monocefálico en el que las decisiones se toman en la ciudad pero se ejecutan en el campo (pues es allí en donde radica la gran mayoría de su fuerza productiva), entender la lógica de estos vínculos es imperativo para conocer el contexto en el que vivimos.”

O que é o contemporâneo?

“Isso significa que o contemporâneo não é apenas aquele que, percebendo o escuro do presente, nele apreende a resoluta luz; é também, aquele que dividindo e interpolando o tempo, está à altura de transformá-lo e de colocá-lo em relação com os outros tempos, de nele ler de modo inédito a história, de ‘citá-la’ segundo uma necessidade que não provém de maneira nenhuma de seu arbítrio, mas de uma exigência à qual ele não pode responder. É como se aquela invisível luz, que é o escuro do presente, projetasse a sombra sobre o passado, e este, tocado por esse facho de sombra, adquirisse a capacidade de responder às trevas do agora. É algo do gênero que devia ter em mente Michel Foucault quando escrevia que as perquirições históricas sobre o passado são apenas a sobra trazida pela sua interrogação teórica do presente. E Walter Benjamin, quando escrevia que o índice histórico contido nas imagens do passado mostra que estas alcançarão sua legibilidade somente num determinado momento de sua história. É da nossa capacidade de dar ouvidos a essa exigência e àquela sombra, de ser contemporâneo não apenas do nosso século e do ‘agora’, mas também das suas figuras nos textos e nos documentos do passado, que dependerão o êxito ou o insucesso do nosso seminário.”

Giorgio Agamben – O que é o contemporâneo? (O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Santa Catarina: Argos, 2009).

As questões práticas

Ultimamente tenho me confundido muito nas questões abstratas que envolvem ou não fotografia. Possivelmente pela diferença de linhas de pensamento nas minhas leituras (entre os autores) e as discussões que têm acontecido aqui pelo blog. Sinto não estar conseguindo ajudar muito o Felipe e a Borda. Então resolvi pensar um pouco sobre coisas de ordem prática: A exposição, seu formato, seus textos, sua edição (tenho gostado cada vez mais dessa palavra).

Eu e o Felipe sentamos, pela primeira vez, essa semana e olhamos todos os arquivos da Borda. Essa revisão foi muito saudável para a nossa parceria, pois descobri que ele nem sempre me mostra tudo o que foi fotografado em um dia de trabalho, e descobri, também, que minha postura tem que ser mais incisiva se eu realmente quero ter a sensação plena de participação.

Assim, começo, agora a tentar reescrever um texto escrito a quatro mãos (eu e Felipe), mas que considero muito preso a um início distante do trabalho, engessado em dados técnicos e, muito mais escrito pelo Felipe, do que por mim, pois de alguma forma sempre tive receito de pôr a mão de verdade no trabalho dele. E também, a tentar editar de forma a estabelecer uma narrativa com o conjunto das imagens.

O incubadora ajudou a diminuir um pouco esse medo de fazer a parceria ser algo além das visitas em dupla à Borda, da edição para envio do trabalho para diversos fins, dos pitacos sobre como, quando, onde imprimir e, obviamente, sobre o que me agrada mais em termos de apuro técnico, papel e afins.

Lendo sobre o campo científico de Pierre Bourdieu fiquei surpresa como as coisas se repetem seja na ciência, seja na arte. Uma frase para refletir:

“Muito semelhante, sob este aspecto (sobre  o apelo de um pesquisador a uma autoridade exterior ao campo científico para promoção de seu trabalho, Pierre Bourdieu fala que este só pode atrair sobre si descrédito), a um campo artístico fortemente autônomo, o campo científico deve, entre outras coisas, sua especificidade ao fato de que os concorrentes não podem contentar-se em se distinguir de seus predecessores já reconhecidos. Eles são obrigados, sob pena de se tornarem ultrapassados e ‘desqualificados’, a integrar suas aquisisções na construção distinta e distintiva que os supera”. (O campo Científico – Pierre Bourdieu, 1976)

A possibilidade de um olhar que deseja

Só existe desejo quando existe uma falta: eu só posso querer ardentemente aquilo que não tenho por completo. É frustrante, mas é isso que faz a gente levantar da cama todos os dias. Por isso o erotismo é melhor que a pornografia. O erótico insinua o objeto desejado mas, ao mesmo tempo, o esconde. O pornográfico o escancara, oferece tudo, e sempre resulta em frustração porque não há nada a ser buscado. A pornografia não é tanto um tema, mas uma forma.

Como seduzir o olhar em meio a tantos estímulos. A imagem que deseja um pouco de atenção tem que descobrir como mostrar um pouco mais, mais vezes, mais rápido, com mais intensidade, mais eloqüência, mais efeitos. Uma forma eficiente de censura é a hiperexposição, porque dá a idéia de uma liberdade extrema, não esgota a fonte, mas o destino das imagens, o próprio olhar.

Estes três trabalhos são muito diferentes. O que vejo em comum – e o que gosto – é a simplicidade das imagens. Simplicidade não quer dizer ingenuidade, timidez, purismo: não é preciso esconder nem a manipulação da imagem, nem a perturbação do lugar, nem o tema desconcertante. Trata-se mais de uma postura serena, de uma economia de recursos retóricos.

Mostrar as coisas se tornou fácil, a câmera responde rápido, faz vídeo, tem alta resolução, exibe imediatamente a imagem, e alcança o mundo todo pela rede.  Qualquer um pode gerenciar esses recursos, mas não nisso que reside a possibilidade de resgatar o olhar. O valor do que tenho visto aqui está em aceitar o desafio de gerenciar as ausências, as ocultações, as dúvidas, os silêncios, as pausas, a espera, o mistério.

adrenalina compartilhada

A gente ficou ali dentro do vídeo, atrás da imagem segurando o pano pra ele não voar. Eu não me lembro em que momento eu saí pra ver, mas depois que as questões práticas foram resolvidas veio o silêncio. Fiquei um tempão olhando praquela casa coberta, selvagem, olhando o Breno em transe…

Ali parecia que eu tinha voltado a fazer cinema, um grupo mobilizado para realizar a idéia de uma pessoa. A logística, as questões, as decisões, um esforço absurdo.

Quando é a próxima, Breno?


my name is Isaiah

No dia que marcava o início das festividades conheci uma casal lindo e suas duas filhas: Tulula de 3 anos e Isaiah (se pronuncia Aiséia), de uns 6.

Eles moravam mais ou menos perto e tinham vindo num furgão, onde dormiriam as noites seguintes. Brinquei um pouco com as meninas, pedi aos pais autorização pra fotografá-las.  É muito legal ver as crianças naquele espaço, potencialmente tão inapropriado e ao mesmo tempo tão acolhedor.

Isaiah e Tulula

Alguns dias depois vejo a mais velha brincando com bolha de sabão. Ela me reconhece e diz. “Tô com sede!”. Fui até a fonte com ela, enchi minha garrafa e dei pra ela beber. Ela bebia a àgua com pressa.

” – Tava com sede mesmo hein, garota?!”

” – Eu não sou garota, eu sou garoto. Eu só gosto de usar cabelo comprido igual menina e eu gosto de rosa.”

antes de processar qualquer coisa, consertei.

” – Tava com sede mesmo hein, garoto?!”

Dei a mão pro menino pra levá-lo de volta às bolhas de sabão. Ainda atropelado um pouco por aquela complexidade de ser, e com a simplicidade com que ele lidava com tudo, reforcei meu apoio.

“- Vamos garoto!”

“- Meu nome é Isaiah.”

(em português, Isaías)

Ele tinha bastante claro o que ele queria e quem ele era.

e já sabia que uma coisa não dependia da outra.

Mas o que é uma paisagem, afinal?

Nomenclaturas… relembrando o primeiro post do Ronaldo.

Fui atrás da origem da palavra Paisagem … segundo o Aurélio:

Paisagem (Do. fr. paysage) S.f. 1. Espaço ou terreno que abrange um lance de vista. 2. Pintura, gravura ou desenho que representa uma paisagem natural ou urbana.

Na Borda do Campo... Felipe Russo

Resolvi investigar um pouco mais e encontrei um texto acadêmico intitulado, ‘Paisagem- Em Busca do Lugar Perdido‘, Teresa Alves ( professora  auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pelo Centro de Estudos Geográficos ).

“A noção de paisagem no Ocidente surgiu associada ao desenvolvimento da pintura. (…) A origem da palavra paisagem é atribuída ao poeta flamão Jean Molinet que, em 1493, a utilizou com o sentido de ‘quadro representando uma região’. Em 1549, no dicionário de francês-latim de Robert Estienne, o termo paisagem designava uma pintura sobre tela. Com Ticiano, em 1552, paisagem passou a significar a representação pictórica de uma vista, normalmente como fundo de um quadro. Em 1690, o dicionário de Furetière descreveu a paisagem como o aspecto de uma região, o território que se estende até onde a vista pode alcançar, definição muito próxima da utilizada hoje no Petit Larousse (1994) <<l’étendeu de pays qui presente une vue d’ensemble>>. O termo paisagem, durante quase dois  séculos, não foi utilizado para designar um facto geográfico, mas o produto da arte de representar numa tela um dado acontecimento enquadrado por uma dada realidade geográfica. (…) Real Life Landscape é uma exposição de obras de arte que procura mostrar as mudanças nas percepção e representação da paisagem. (…) Esta exposição revela como a paisagem evoluiu da representação de um espaço geográfico, primeiro naturalista e depois abstrata, para a metáfora da representação dos mundos da mente, da imaginação, dos ideais. (…) A concepção de paisagem transforma-se – as paisagens são criadas pelas pessoas através da sua experiência e pelo seu envolvimento com o mundo que as rodeia – as formas de arte acompanham essa mudança.” (ALVES. pg. 67 e 68)

O que vejo é que a paisagem se transforma com o tempo. O homem altera a paisagem e, por ela, é modificado. Alguns lugares, me dão a sensação de que o homem e seu entorno são indissociáveis.

Nas fotos de Felipe, percebo um movimento de integração entre sujeito e o lugar onde vive que, ao meu ver, minimiza as diferenças entre retratos e paisagem.

Sei que retratos envolvem pessoas; paisagens, espaços geográficos, imaginação, ideais, como disse Alves no excerto acima. Entretanto, o que sinto no ‘Na borda’ é que, simplesmente, não consigo separá-los, pois cada retrato já é, pra mim, uma paisagem. As pessoas estão imbuídas de seu entorno, na sua expressão, na sua forma de se mover, na lama na barra da calça, na proximidade com uma floresta, com uma rodovia isolada, com uma represa.

Um fato é, as pessoas já sugerem: paisagens, retratos, personagens. As paisagens são retratadas. Os retratos, muitas vezes, incompreendidos quando recebidos impressos (como se as pessoas não se reconhecessem ali). Sobre esse não reconhecimento lembro de Barthes, refletindo sobre um retrato de si próprio:

“Eu queria, em suma, que minha imagem, móbil, sacudida entre mil fotos variáveis, a sabor das situações, das idades, coincidisse sempre com meu ‘eu’ (profundo, como é sabido); mas é o contrário que é preciso dizer: sou ‘eu’ que não coincido jamais com minha imagem; pois é a imagem que é pesada, imóvel, obstinada ( por isso a sociedade se apóia nela), e sou ‘eu’ que sou leve, dividido, disperso e que, como um ludião, não fico no lugar, agitando-me em meu frasco: ah, se ao menos a Fotografia pudesse me dar um corpo neutro, anatômico, um corpo que nada signifique!” (BARTHES, pg. 24)

As paisagens e retratos de Felipe, são só dele, mesmo que sejam paisagens de outras pessoas, mesmo que tenha referência em outros trabalhos ou artistas, mesmo que tenha absorvido muito daquele bairro e de seus moradores. Mas essas imagens, são só dele. Não sei como mudar isso.

Link para o texto integral da Teresa Alves, aqui.

lugar para o mistério

® Andrei Tarkovsky

Começei a ler um livro que o Tarkovsky escreveu sobre seu processo criativo, suas reflexões e o significado dos longos intervalos entre os filmes que ele fez. Mesmo sendo um livro escrito por uma pessoa que fala com muita propriedade sobre cinema, as questões sobre processo criativo e discussão parecem muito pertinentes para a incubadora.

O meu mais fervoroso desejo sempre foi o de conseguir me expressar nos meus filmes, de dizer tudo com absoluta sinceridade, sem impor aos outros os meus pontos de vista. No entanto, se a visão de mundo transmitida pelo filme puder ser reconhecida por outras pessoas como parte integrante de si próprias, como algo a que nada, até agora, conseguiria dar expressão, que maior estímulo para o meu trabalho eu poderia desejar?   Este livro amadureceu durante o período em que minhas atividades profissionais estiveram suspensas… seu principal objetivo é ajudar-me a descobrir os rumos da minha trajetória em meio ao emaranhado de possibilidades contidas nesta nova e extraordinária forma de arte – em essência, ainda tão pouco explorada – para que eu possa encontrar a mim mesmo, com plenitude e independência.”

Isso tem me feito pensar na importância do espaço para o mistério no trabalho de arte, para que se investigue no processo criativo aquilo que talvez não seja nem mesmo capaz de ser explicado, mas que vai servir de motor para o desenvolvimento de várias pesquisas.

Toda vez que eu tive que explicar algum trabalho meu me senti como se eu diminuísse as possibilidades de entendimento sobre ele, não porque eu não soubesse explicar, mas como se eu diminuísse as possibilidades de interpretação. Acho importante o trabalho de cada um enfrente todas as questões que ele gera no artista, que o mistério do próprio trabalho seja enfrentado por vocês como uma ferramenta para não perder a sinceridade durante o processo criativo, para não cair no lugar-comum de buscar um sentido fácil e nem buscar apenas a recompensa dos aplausos.

“Uma espectadora de Gorki escreveu: “Obrigado por O Espelho.Tive uma infância exatamente assim. … Mas você… como pôde saber disso?

‘Havia o mesmo vento, e a mesma tempestade… ‘Galka, ponha o gato para fora’, gritava a minha avó. … O quarto estava escuro… E a lamparina a querosene também se apagou, e o sentimento da volta de minha mãe enchia-me a alma… E com que beleza você mostra o despertar da consciência de uma criança, dos seus pensamentos! … E, meu Deus, como é verdadeiro … nós de fato não conhecemos o rosto das nossas mães. E como é simples… Você sabe, no escuro daquele cinema, olhando para aquele pedaço de tela iluminado pelo seu talento, senti pela primeira vez na vida que não estava sozinha… .’

Passei tantos anos ouvindo dizer que ninguém queria os meus filmes, e que os mesmos eram incompreensíveis, que uma resposta assim enchia-me a alma de alegria, dando um sentido à minha atividade e reforçando a minha convicção de estar certo e de que o caminho que escolhera nada tinha de fortuito. “

Para quem se interessar pelo texto integral da introdução do Tarkovsky ao livro dele, clique aqui.

17:44

c nstr ç˜o

“Olá Breno , tudo bem?

Então tava conversando com o gUi e pensamos numa coisa. Estamos bem intrigados (no melhor dos sentidos) com os rumos que seu trabalho esta tomando, e as discussões que ele levanta.
O esboço e ideia de cobrir a casa nos parece um tarefa dura e bem trabalhosa, mais que com certeza precisa ser feita. Pensamos se você não gostaria de uma (duas, quatro) mão. Cara, de verdade…Podemos pegar um final de semana ou até o feriado e ir juntos. Vamos no meu carro e lá podemos te dar uma assistência nessa construção?

O que você acha?

Assim conversamos mais um pouco sobre os 3 trabalhos, a Olido…um intensivão.

Um abraço, Felipe”


sopro



Tinha apenas dado indício que precisava esconder a casa. Agora, já falo com tecido em mãos para isso acontecer. São 9×12,5m, costurados na casa e pelas mãos de Francisca com minha ajuda. Tenho pensado bastante nessa casa, até chegar que eu precisava dar o primeiro passo na construção do sopro. E nesse passo, corpo inteiro entra na imagem. A ideia é cobri-la com pano. Quero com isso, esconde-la, um corpo que se torna mútiplo nos seus significados, que pode se mostrar casa como outra coisa qualquer – mas mesmo se for casa, não será a mesma que a anterior. O tecido é quase um intermédio, um objeto que transcende seu sentido para revelar ou esconder. Ele toma a forma do outro. A existência visual do vento só aparece por causa do tecido, em seu movimento. É uma troca de sujeitos. Entre vento e o tecido. Agora casa e tecido. Acredito que forme outra coisa com essa junção, uma possibilidade de criar um objeto/corpo novo. Essa construção tem uma outra importância. Começa uma fase de construção no “sopro”, de uma interferência mais invasiva na imagem.

Começo a pensar como essa historia pode ser finalizada. Como o espectador se relacionara com a imagem.

E Felipe, acho ótimo. Vamos sim. Sinto que cada hora a Incubadora faz mais sentido.

Até amanhã de manhã.

um grito afônico

'end of the line' de Dana Miller

Vi numa seleção de 4 ou 5 imagens de Dana Millernuma galeria e pude notar rima visual que me lembrou muito do trabalho do Breno.

e essa imagem do carrinho… me deu uma vontade de pular e salvar ele.

Mas tem algo na melodia desse trabalho que não combina com as fotos do sopro (essas três eu que tentei juntar).

To começando a ter uma idéia minha sobre o sopro, Breno. Tem umas coisa nas suas fotos, um abafamento…

como se sopro fosse o que sobrou de um grito que não conseguiu sair.